Território &
Cidadania
vol II, número 2, Julho- Dezembro de 2002.
Consumo sustentável:
um compromisso de todos
Silvia Aparecida Guarnieri Ortigoza(1)
O modo de vida urbano se estabelece na sociedade e acaba criando condições para que a mídia desenvolva formas de estimular o consumo. Com isso, uma sistemática onda de produtos, o consumo desenfreado, os supérfluos e os descartáveis foram sendo introduzidos no cotidiano das pessoas. Esta sociedade é denominada por Lefèbvre (1991) como “sociedade burocrática de consumo dirigido” e sua crítica revela como o processo de consumo vem sendo intensificado nos dias atuais. Para intensificar o consumo não basta criar novos produtos, eles precisam se tornar necessidade e, nesse sentido, estudar este tema significa trabalhar com relações bastante contraditórias entre: necessidade, consumo e desperdício. Ao satisfazer nossas necessidades podemos tanto estar contribuindo para a melhoria do nosso entorno e da qualidade de vida como também para o agravamento das más condições ambientais já existentes, e, desse modo, precisamos repensar nossas “reais” necessidades. Formamos então mais alguns pares dialéticos: necessidade, qualidade de vida e condições ambientais.
O significado do consumo na organização da sociedade atual é preponderante, o “status” da pessoa, é, muitas vezes, medido pelo que consome e não pelo que possa ser necessário e útil na sua vida. Assim, a crítica à sociedade de consumo nos revela como este processo foi se estabelecendo e como chegamos ao ápice desta relação na qual o cidadão passa a ser confundido com o consumidor.
Com esse aumento do consumo, os resíduos tornaram-se um grande problema para a qualidade ambiental das cidades. Em todas elas existe hoje um grande desafio: reduzir o volume de lixo.
Neste contexto, o conceito "Consumo Sustentável" traz uma noção de consumo que envolve a preocupação sistemática em satisfazer as necessidades da sociedade atual e a preservação dos recursos, garantindo assim uma vida ambientalmente saudável para as futuras gerações; ela engloba portanto a própria noção de sustentabilidade.
O Consumo Sustentável aparece como uma possibilidade de abordar a questão dos impactos gerados pelo consumismo, trata-se de um tema bastante atual e também polêmico, pois envolve, sobretudo, mudanças de atitudes aliadas a um forte apelo exercido por uma educação ambiental eficaz e contínua. É portanto, um processo que deve ser iniciado, mas que só poderá ser alcançado a longo prazo.
A essência do Consumo Sustentável é criar nos consumidores uma consciência ecologicamente seletiva, desenvolvendo dentro do cotidiano novos hábitos de consumo mais responsáveis com menor volume de desperdício. Deve-se educar primeiramente para a redução, afinal nem tudo que consumimos é realmente uma necessidade. Devemos passar a observar nossas necessidades “reais” e as “criadas” pela mídia. Posteriormente, deve-se educar para a reutilização. Muitos dos produtos que consumimos podem servir para novos usos. A introdução desta prática em nossas vidas também minimiza os impactos dos descartáveis. E, em seguida, temos que passar a reciclar os produtos já utilizados, ou seja, introduzi-los novamente ao sistema produtivo de forma que se transformem em novos produtos. Essas são mudanças comportamentais que se introduzidas nas vidas das pessoas, possibilitarão menores impactos no ambiente urbano porque os maiores dilemas da questão do lixo está justamente na imensa quantidade e na sua disposição final.
Existe uma carência de pesquisas que tenham como objetivo conhecer a realidade do processo de consumo como um todo, que envolve desde a produção, o comércio, chegando a realização da mercadoria pelo consumo. Através deste entendimento deve-se propor alternativas de um Programa de Consumo sustentável: contemplando uma educação ambiental que desenvolva critérios e metodologias de avaliação da problemática ambiental de maneira clara, propiciando informação aos consumidores que estimulem mudanças de comportamento.
(1) Geógrafa - Profa. Dra. do Departamento de Geografia - IGCE - UNESP Campus de Rio Claro
(sago@rc.unesp.br)